domingo, 23 de junho de 2013

Manhã cinzenta


Hoje minha manhã não foi muito alegre e penso que o restante desse dia também não será. Ontem eu estive á beira de uma crise e o medo e a angustia tomaram conta de mim. Eu deveria estar feliz pq finalmente eu posso me considerar de férias depois de um semestre cansativo e estressante da faculdade... mas não. Assim que eu terminei minha ultima prova, recebi a notícia de que meu pai estava internado e o estado dele não era bom. os médicos disseram que ele estava com o coração, o pulmão e o fígado muito inchados e que o estado dele era irreversível.
Na hora que me disseram isso eu não sabia o que estava sentindo, foi um choque.

Eu e meu pai não estávamos muito próximos nos últimos anos por conta de diversas brigas, discórdias e atrito de pensamentos e princípios. Ele e a minha mãe se separam quando eu tinha 17 anos, e desde então a nós nos distanciamos. Acho que tinha uns 2 anos que eu não tinha contato com ele.

Em pensar que um  dia o meu pai foi meu herói e a pessoa que eu mais amava e confiava no mundo. Eu era super apegada à ele, e ele á mim. Ele era o meu melhor amigo e eu contava tudo pra ele: de quem eu gostava, o que eu pensava, os motivos que meu deixavam triste ou alegre. Ele era o meu ponto de referência. Trabalhador, carinhoso, bom pai, amigo, companheiro... me mimava o máximo que podia. Fazia tudo pra me ver feliz. Mas com o tempo eu fui crescendo e percebi que essa visão de "príncipe encantado" que eu tinha sobre ele não era verdadeira. O meu pai não era um príncipe e muito menos encantado. Ele era um homem comum, cheio de fraquezas e que não cumpria nem um terço dos princípios éticos e morais que ele e minha mãe haviam me ensinado a vida toda. Essa foi minha primeira desilusão.
E quanto mais o tempo passava mais triste com as atitudes dele eu ficava. ele fazia tudo pra prejudicar a minha mãe, que sempre cuidou de mim e da minha irmã da melhor forma possível, que fez tudo para esconder da gente quem era o meu pai "verdadeiramente". Foi uma época difícil pra mim.
Minha dor era tão grande que pra suportar a verdade e conseguir enxergar meu pai como realmente era, eu anulei o sentimento que eu tinha por ele dentro de mim. Eu simplesmente sufoquei toda a saudade, a admiração e a necessidade que eu tinha de ter por perto um pai. E já faz uns 6 anos que eu venho sufocando isso e me mantendo afastada dele, quase que totalmente. Acho que esse ano eu falei com ele 2 vezes e nem foram conversas longas.

O meu pai sempre foi muito trabalhador, isso ngm pode falar o contrário, qndo eu tinha uns 11 anos ele deixou minha mãe, eu e a minha irmã aqui no Brasil e foi pra Inglaterra pra trabalhar e tentar dar uma vida melhor pra gente. Por certo tempo isso deu certo, ele trabalhava lá, mandava dinheiro pra nós aqui... mas não era tudo perfeito não. Minha mãe tinha que trabalhar aqui tbm, as vezes o que ele ganhava lá não era o suficiente pra nos manter aqui. Ele ficava um ano sem nos ver, e isso só foi nos afastando, pq ele foi deixando de participar do nosso dia a dia e nós não tínhamos mais assuntos em comum. Isso durou 6 anos.
Não cabe que eu diga aqui as coisas ruins que ele fez pra mim e pra minha família. Quando ele foi diagnosticado bipolar ele recusou tratamento e nós também não tínhamos consciência do que era a doença e nem conhecimento para ajudá-lo ou pra aguentar as crises dele. Eu particularmente achava até engraçado qndo ele trocou de carro 60 vezes em 3 meses, ou quando ele achava que era o super-homem... pq, pra mim, de fato, ele era.

Meu pai é alcoólatra a muitos anos, e com o passar do tempo isso só piorou. O café da manhã dele era 3 doses de conhaque, e o dia seguia assim. Essa foi a saída que ele encontrou pra controlar os pensamentos, superar as crises de depressão e se sentir melhor e com a autoestima mais alta durante as crises de mania.
Gastos excessivos, redução da necessidade do sono, falta de controle no seu temperamento, fala em excesso, etc... eram características marcantes do comportamento do meu pai durante as crises de mania. Na fase depressiva, acho que não é difícil adivinhar como era o comportamento dele neh?!

Eu to contando isso aqui, pra deixar ainda mais evidente a importância do tratamento para a melhora comportamental do bipolar. O bipolar que aceita o tratamento e o segue de forma adequada, tem mais chance de ter uma vida melhor, próxima da normalidade, e consegue controlar melhor os seus pensamentos, suas angustias e suas compulsões. Álcool não combina com quem tem transtorno bipolar, as emoções e pensamentos que ele provoca são meras ilusões e é um perigo se o bipolar ficar dependente disso pra conseguir sair de casa e viver em sociedade.

Meu pai tem 45 anos e hoje o estado dele é aquele que eu descrevi acima. Talvez se ele tivesse conhecimento sobre o que é o transtorno bipolar e as suas consequências á longo prazo, ele teria feito o tratamento. E se nós, como família também tivéssemos a informação necessária para ajudá-lo... Enfim, não adianta pensar nisso agora né?!
Mas talvez essa história sirva de ajuda pra outras pessoas.....


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